12 de Junho – A FASE MÍSTICA DE FERNANDO PESSOA

 

 

Trabalho apresentado no jantar comemorativo do aniversário (112 anos) de

FERNANDO PESSOA, no Café Martinho da Arcada, em Lisboa, em 13/06/2000

 

 

 

Fernando Pessoa_Almada
   

PEQUENO PREÂMBULO INTRODUTÓRIO

 

O poema ou poemas que irei ler reportam-se à fase mística de Fernando Pessoa, mais propriamente à fase Rosicruciana, fase em que o poeta estudou e aprofundou toda ou quase toda a literatura que existia acerca da história dos RosaCruzes; primeiro, um movimento, depois, uma fraternidade, e finalmente uma Ordem, que vieram para realizar o sopro e anseio do Universo:“Homem, conhece-te a ti mesmo e vive em harmonia e amor.” Bem patente desse profundo interesse de Pessoa é a literatura encontrada na sua biblioteca e os seus escritos sobre o assunto.

Desde muito jovem, Pessoa se interessou pelo mistério e pela metafísica, como o testemunham poemas intitulados “Metempsicose”, “O Círculo” e “Nirvana”, ou fragmentos de ensaios, numa precocidade que ia já de encontro à sua tese “o génio é um iniciado de nascença”, mas contudo, será com a idade que ao receber mais conhecimentos e ao despertar a sua consciência, conseguirá desvendar algumas dessas interrogações misteriosas.

Já numa carta de 1915, dirigida ao seu malogrado amigo Mário de Sá Carneiro, Pessoa escreve a propósito dos livros teosóficos que fora convidado a traduzir: “O carácter extraordinariamente vasto desta religião filosofia; a noção de força de domínio, de conhecimento superior extra-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Assim como a leitura de um livro inglês sobre “Os Ritos e os Mistérios dos Rosa Cruz.” A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me hante.”(sic)

Será este primeiro livro de Hargrave Jennings – “Os Ritos e os Mistérios dos Rosa Cruz”, que tanto o impressionou, que fará a sua primeira ligação com a Tradição hermética rosicruciana. A Tradição Rosacruz, nascida no século XIV com Christian Rosenkreutz, é um dos elos da continuidade de investigadores da natureza material e sensível do Universo, que chegou até aos nossos tempos e da qual Fernando Pessoa faz parte.

Como dizia Fernando Pessoa: "Na época da novas descobertas, a fazerem-se no interior da alma", inúmeros destes escritos Rosicrucianos serão veros desafios à audácia e ao ardor de conhecimento dos mais receptivos e maduros que poderão assim aprofundar a Rosea Cruz. E será nos apontamentos e meditações dos símbolos da Ordem (a Cruz, a Rosa e a Rosa Cruz) que Pessoa mostrará mais beleza e originalidade.

Vamos ouvi-lo:

               (Poema datado de  6/2/1934)             

Porque choras de que existe

A terra e o que a terra tem?

Tudo nosso – mal ou bem –

É fictício e só persiste

Porque a alma aqui é ninguém.

 

Não chores! Tudo é o nada

Onde os astros luzes são.

Tudo é lei e confusão.

Toma este mundo por strada

E vai como os santos vão.

 

Levantado de onde lavra

O inferno em que somos réus

Sob o silêncio dos céus,

Encontrarás a Palavra,

O Nome interno de Deus.

 

E, além da dupla unidade

Do que em dois sexos mistura

A ventura e a desventura,

O sonho e a realidade,

Serás quem já não procura.

 

Porque, limpo do Universo,

Em Christo nosso Senhor,

Por sua verdade e amor,

Reunirás o disperso

E a Cruz abrirá em Flor.

 

 

Este é um poema que nos aparece dividido em três partes – como uma trilogia de sonetos –

inspirado  numa  descrição  do  Túmulo  de  Christian  Rosencreutz  constante  da   “Fama Fraternitatis”, primeiro manifesto público

da ou sobre a Fraternidade Rosacruz.

 

I

Quando, despertos deste sono, a vida,

Soubermos o que somos, e o que foi

Essa queda até Corpo, essa descida

Até à noite que nos a Alma obstrui,

 

Conheceremos pois toda a escondida

Verdade do que é tudo que há ou flui?

Não: nem na Alma livre é conhecida…

Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.

 

Deus é o Homem de outro Deus maior:

Adam Supremo, também teve Queda;

Também, como foi nosso Criador,

 

Foi criado, e a Verdade lhe morreu…

De além o Abismo, Spirito Seu, Lha veda;

Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido

Quando a Infinita Luz, já apagada,

Do Caos, chão do Ser, foi levantada

Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

 

Mas se a Alma sente a sua forma errada,

Em si, que é Sombra, vê enfim luzido

O Verbo deste mundo, humano e ungido,

Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

 

Então, senhores do limiar dos Céus,

Podemos ir buscar além de Deus

O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

 

Mas só de aqui, mas já de nós, despertos,

No sangue atual de Cristo enfim, libertos

Do a Deus que morre a geração do Mundo.

 

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,

Dormimos o que somos, e a verdade,

Inda que enfim em sonhos a vejamos,

Vêmo-la, porque em sonho, em falsidade.

 

Sombras buscando corpos, se os achamos

Como sentir a sua realidade?

Com mãos de sombra. Sombras, que tocamos?

Nosso toque é ausência e vacuidade.

 

Quem desta Alma fechada nos liberta?

Sem ver, ouvimos para além da sala

De ser: mas como, aqui, a porta aberta?

 

Calmo na falsa morte a nós exposto,

O Livro ocluso contra o peito posto,

Nosso Pai Rosaeacruz conhece e cala.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~

13/06/2000

Carmo Vasconcelos

 

 

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