PREFÁCIO PARA “NO SILÊNCIO NO TEMPO”, DE JOAQUIM SUSTELO

 

 

 

 

 

Prefácio para “No Silêncio do Tempo”,

de Joaquim Sustelo

 

 

Neste jardim de poetas, a diferença surge-nos pela forma, o estilo, a força e a sensibilidade, como cada poeta abre as pétalas da sua poesia para nós. Uns mostram-se como um impenetrável botão, no hermetismo das suas evocações; outros aparecem-nos como flor meia desfolhada, para que o leitor sinta o prazer de a descobrir. Joaquim Sustelo é, na minha óptica, corola totalmente aberta numa dádiva completa, branca na pureza e transparência dos sentimentos.

 

A sua poesia brota espontânea e corre límpida e fresca, sem turvações rebuscadas, desmaquilhada de artifícios, porém, multifacetada no seu cariz e sempre irisada de grande sensibilidade. O soneto, a sua inclinação nata. Ele manipula-o com uma destreza invulgar que, não fora, por vezes, a singeleza do tema, poderia levá-lo à genialidade. 

 

“No Silêncio do Tempo”, ecoam vazios, ausências, afectos impossíveis ou inalcançados :

 

“Amor é gostar, mesmo proibido

   É rua que apresenta um só sentido

                                                          É ir, inda que cego, sempre em frente

 

    É sonhar, para estar sempre contigo

       É muito, muito mais do que aqui digo

  É ter-te, sem te ter completamente.”

 

 

Mas não só! Por vezes, Sustelo extasia-se ante a Natureza. Perante o mar, um pôr-do-sol, uma tarde de chuva, um início de Primavera… fazendo dessa contemplação, desse deslumbramento, quase inconscientemente, uma simbiose com o êxtase amoroso:

 

       Olhei: bola de fogo em horizonte…

      Teus olhos me brilhando ali defronte…

      Tudo era deslumbrante… extasiava!

 

  Rendia-me ao esplendor da natureza

Via no teu olhar tanta beleza

      Nem sei em qual dos dois eu me encontrava…

 

            E porque todo o poeta conserva em seu interior a criança que foi, raramente os versos que talha ignoram as reminiscências da sua infância, das suas raízes: Sustelo não as ignorou. Podemos constatá-lo em poemas como: “A minha casa velhinha”, “Natal de outros tempos” “Carnaval”. Nestes poemas, sobressai o dom natural dos “simples”, que cantam o poema com a mesma naturalidade com que os pássaros trinam.

 

            Contudo, Joaquim Sustelo não é apenas um contemplativo da natureza, um cantante do amor, um saudoso da meninice. Quem o conhece, sabe-o um poeta despojado de vaidades vãs, que caminha sereno, indiferente a horizontes de fama. Porém, a sua poesia mostra-nos uma outra vertente, do poeta e do homem. Quanto a mim, talvez aquela onde mais fortemente se impõe a sua veemência poética. Nela, ruge a força de um ser insatisfeito e “ambicioso”. Ambicioso, sim! Todavia, as suas ambições não são egoístas. Como um militante, o seu clamor volta-se para o bem-estar da humanidade, para a justiça e igualdade social, para a paz universal. 

 

“E vós gente letrada que mandais

Que fazeis vossas guerras preventivas

Que não previnem nada e incendeiam

 

Cuidado com alguns dos que julgais!

Vossas mentes são inda mais nocivas

Com ódio nos interesses que as norteiam”

 

            É assim que, corajoso na denúncia, Joaquim Sustelo solta os seus gritos de revolta e de crítica, intercalados quando em vez por verdes de esperança num futuro mais promissor, num mundo mais justo e menos desumanizado, fazendo jus à intensa e verdadeira alma de poeta que nesta vida o acompanha.

 

            Que mais dizer deste poeta?… Que “No Silêncio do Tempo”, o tempo lhe deu voz?… O melhor mesmo será lê-lo!

 

 

Em 30/03/2005                                                                      

Carmo Vasconcelos

 

 

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