PREFÁCIO PARA O E-BOOK “ESBOÇANDO PAISAGENS”, DE MOISÉS SALGADO

 

 

 

 

PREFÁCIO PARA O E-BOOK “ESBOÇANDO PAISAGENS”,

DE MOISÉS SALGADO
 

Esboçando um Prefácio

 

Falar de Moisés Salgado e da sua poesia, mais do que um desafio, eu considero arrojo. Como se a gota de água se atrevesse a falar do mar imenso. Assim, falarei apenas pela voz da minha sensibilidade poética, exacerbada perante a leitura deste livro. Para “Esboçando Paisagens”, só me atreverei a fazer o “Esboço de um Prefácio”. 

 Preâmbulo: Ao passo que em todas as nações latinas se contribui extraordinariamente para a glorificação da divina arte de interpretar a beleza, no nosso país que viu nascer poetas gloriosíssimos, como Camões, Bocage, Antero, Cesário Verde e tantos outros, parece hoje que a dinâmica emotiva, que outrora vibrou e resplandeceu em catadupas de harmonia, se esgotou na pletora da inspiração nacional. São os poetas que nas suas estrofes tornam imortais as nacionalidades; são eles que choram em ritmos d’oiro as suas amarguras, os seus desastres, e cantam com esplendores sonoros as suas glórias, os seus triunfos; são eles que celebram as lutas e glorificam a paz. A Grécia viverá eternamente na obra de Homero e Roma na de Virgílio. Dante, Milton, Goethe, Victor Hugo são glórias das pátrias a que pertenceram. (Olimpio Cesar, em “Arte Poética”)

Posto o preâmbulo, arrisco-me a dizer que numa época em que a inspiração – a ignis sacra – se vai dispersando na multiplicidade de expressões, por vezes vazias de sentido e de estética, a que os seus autores pretensamente chamam poesia,  é com aprazível deleite que nos detemos em Moisés Salgado “Esboçando Paisagens”. Sem pretender fazer comparações, já que cada poeta é único e inimitável na sua manifestação, não posso evitar ao lê-lo que me venha à memória o nosso saudoso Teixeira de Pascoaes – O Eremita do Marão. Em aparente semelhança, os versos do autor casam muitas vezes com a paisagem: “Não há outro país para lá ou para cá do Marão”;“O infinito é o prolongamento destes montes/ E os próprios deuses intimidam-se com tamanha imponência/ Só os campesinos que os moldam lhes conhecem as fraquezas; O autor chega mesmo a unificar-se com o cenário que o rodeia: “Morrerei sangrando interiormente/Velho salgueiro atacado pelo bicho”; “Renascerei das cinzas/ Como as giestas e as silvas”. Servindo-me das palavras de José Gomes Ferreira acerca da obra de Pascoaes e da influência do Marão na sua criação literária, eu digo de Moisés Salgado: «Naquele cenário de aspectos roucos, alheio à quotidiana da terra dos homens, meio anjos meio demónios, a grandiosidade da paisagem que defronta coloca-o “perto dos deuses iniciados”»   

E é nesse habitat, tal como Miguel Torga calcorreando Trás-os-Montes ou as margens do Mondego, que Moisés Salgado sofre e goza em cada verso, vertical, insubornável e solitário, colocando-se no centro subjectivo da vida. Como ele mesmo diz: “Aninhado neste paraíso interior em mim criado/ Sem nenhures coordenadas a localizá-lo/ Estou algures acomodado num refúgio enfatizado” – como se a solidão fosse para ele um destino. Todavia, o autor, que a dado passo do seu livro nos diz: “Eu sei que sou o limite”, mostra-nos em “Esboçando Paisagens” que é ilimitado na sua arquitectura poética de reflexões, êxtases e desalentos, moldados da pedra que extrai da sua jazida interior. Eu diria que ele alberga vários poetas num só Poeta e que a sua poesia abrange, porventura, reflexos de uma alargada cultura, bebida e interiorizada desde os poetas já imortalizados até aos mais recentes. A uma leitura atenta, descobrimos neste autor um misto de Pessoa e de Álvaro de Campos, passando por Pascoaes e Torga, até Cesariny e Herberto Helder, manifestando-se contudo, na essência, de forma original e inigualável. Moisés Salgado é Único quando nos presenteia com versos, tais como: “As minhas asas fragilizam-se de cansaço/ Serão os pólenes alucinantes/ Ou as minhas diligências pesados fardos?”; “Enverguei uma camisa branca e apertei o colarinho/ O nó está no peito/ A gravata desfeita no corpo em desalinho”; E quando a solidão se faz gemido: Sou um fio de água sem propósito/ Ignorando o prometido ócio do mar alto/ Afogo-me nas areias movediças dos meus desertos/ Numa infrutífera busca do meu éden imaginário”; ou quando a mesma se faz dor: “Nada me dói/ Sou antes eu que doo/ Visceral, carnal, mental/ Condoído e sentimentalmente”.

No amor, o autor surge-nos questionador e, ao mesmo tempo, balançado entre a tentação, a quimera e a desilusão: “Questiono-me se o amor ainda merece ser cantado”; “Eu e tu refugiados um no outro/ Mendigos de carinhos/ Pródigos de nós”; Dói-me como me dói o amor ausente…. Num jogo de cabra-cega/ Oculta atrás da sebe/ Sou a criança ignorada/ Que se esqueceram de procurar”; e agora mais incisivo: “O amor também ficou no capacho da entrada”.

Na consciencialização da dualidade de si mesmo, – ora calçada de granito, ora um ser dotado de asas frágeis – surge-nos, ora cáustico nos auto-retratos que esboça: “Eu cá tenho a pele ressequida/ O bicho e as larvas já fizeram a sua parte”, ora temeroso:  O animal que gerei/ Indefeso e exposto/ Teme agora não ser capaz/ De inverter esta condição”. Contudo, falando com precisão de coisas imprecisas e incertas, mostra-se duma clarividência que chega a doer: “Por mais que tente não compreendo a maldade/ Dos homens feitos deuses/ E dos Deuses que nos homens delegaram autoridade”.

Como que renegando a sua genialidade, ou regozijando-se na pele do incógnito, Moisés Salgado, diz-nos: “Eu canto o que outros já cantaram/ Envergonho-me de tanta tacanhez/ E da parca imaginação”; ou ainda: “Parco de feitos e de obra/ Finar-me-ei como nasci/ Incógnito e sem querer”. Aqui, por associação, não posso furtar-me à lembrança das palavras de Pessoa quando ainda muito jovem escreveu: «Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio» (Em “Crónica da Vida que Passa”- 1915).

Muito mais haveria para dizer sobre este autor, que se reconhece controverso, e simultaneamente depreciativo e orgulhoso de si mesmo: “Por que razão e a propósito de quê/ Valho o muito de ser tão pouco?”;Aprendi pouco limitado à minha curiosidade/ Mas orgulho-me de como penso, vivo e escrevo”.

Eu também me orgulho de ter lido este Poeta de talento privilegiado, um Homem que encarna uma convulsionada torrente de emoções que encontram no verso a sua foz. Que me perdoe Moisés Salgado… mas eu jamais seria capaz de reflectir com as minhas pálidas palavras o brilho do Grande Poeta que é! Em suma, todo um mundo interior complexo, denso e vulcânico, irrompendo em lavas de poesia.

Aos leitores deixo o prazer de descobrirem o que deixei por dizer.

Lisboa, 2006-02-06
Carmo Vasconcelos
 

 

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